Roshan: o objetivo que organiza o mapa e a armadilha do Aegis
Roshan não é só a Aegis: é a coisa que decide qual metade do mapa importa. Quando fazer, como preparar, e por que times ganhando perdem a partida logo depois de pegá-lo.
O Roshan é o objetivo mais mal usado do Dota, e por um motivo curioso: ele é fácil de matar e difícil de aproveitar. Times de elo médio decidem fazer Roshan pelo item, pegam o item, e perdem a partida nos oito minutos seguintes. Este guia é sobre as duas coisas que explicam isso.
Parte 1: o Roshan hierarquiza o mapa
A primeira função do Roshan não tem nada a ver com a Aegis. É esta: a posição dele decide qual metade do mapa vale mais.
Território do lado do Roshan vale mais que território do lado oposto, porque é onde o próximo objetivo grande vai ser disputado. Isso muda decisões que parecem não ter relação nenhuma com o Rosh.
Exemplo concreto, tirado de partida profissional que analisamos: o time tomou a selva grande do topo. O Roshan está no topo. Esse é o momento de brigar para retomar a selva grande de baixo?
Não. Retomar o lado errado do mapa é gastar briga em chão que ninguém vai usar. Se a próxima grande discussão vai acontecer no topo, é lá que os seus cinco heróis, a sua visão e o seu tempo têm que estar.
A regra prática que sai daí:
Antes de escolher qual território contestar, olhe onde está o Roshan. Ele desempata.
Parte 2: quando fazer
Roshan não é uma decisão de "estamos fortes?". É uma decisão de condições. As quatro que importam, e todas precisam ser verdadeiras:
- Você sabe onde estão pelo menos três inimigos. Sem isso, você está apostando.
- A visão do pit é sua, e a deles não existe. Deswardar é mais barato que ganhar a briga que acontece quando eles enxergam.
- Existe uma wave avançando em algum lugar. Se todas as lanes estão paradas, o time inimigo está livre para vir olhar. Wave que avança obriga alguém a responder.
- Você tem plano pro que vem depois. Roshan que termina com todo mundo voltando pra base é Roshan que só serviu pra queimar 40 segundos.
E a condição negativa, que vale mais que as quatro: não faça Roshan porque ele nasceu. O respawn dele não é um convite.
Parte 3: como preparar
O Roshan bem feito começa de dois a três minutos antes, e quase nada disso acontece no pit.
- Visão primeiro. Observer que enxerga a entrada pela qual a resposta chega, sentry para negar a visão deles. Antes da discussão, não durante.
- Empurre uma lane. De preferência a mais distante do pit. É o que segura um ou dois deles longe.
- Decida quem pega a Aegis antes de começar. Discussão sobre isso dentro do pit é como o time perde a briga que vem logo depois.
- Saiba a saída. Por onde vocês vão embora se eles chegarem em cinco. Se a resposta é "pelo mesmo lugar que entramos", o Roshan está mal posicionado.
Parte 4: a armadilha do Aegis
Aqui está a parte que muda mais partidas, e é contraintuitiva.
Pegar a Aegis cria um relógio psicológico. O time pensa: "tenho a Aegis, tenho o que usar". E a partir daí, em vez de usar a vantagem para jogar com mais segurança, o time gasta a vantagem procurando briga.
O padrão é sempre o mesmo, e ele tem um mecanismo concreto, não é só "afobação":
- O time anda em cinco pelo mapa procurando o que fazer.
- Como andam em cinco, ninguém está empurrando lane.
- Sem wave avançando, o adversário não é obrigado a aparecer em lugar nenhum.
- A jogada não encaixa. A frustração cresce.
- Vem a play forçada, em terreno ruim, e a Aegis é gasta numa briga que não muda nada.
Já vimos uma vantagem de ouro despencar duas vezes na mesma partida, nas duas janelas imediatamente posteriores a um Roshan, pelo mesmo time. A Aegis não fez o time perder. O que fez foi o comportamento que ela induz.
O que fazer com a Aegis
A Aegis é uma licença para jogar mais seguro, não mais agressivo. Ela permite:
- entrar primeiro em uma briga que você ia comprar de qualquer jeito, com o herói certo;
- fazer split push com o core que carrega a Aegis, porque o custo de ser pego caiu;
- forçar high ground com uma vida de sobra, quando o objetivo já estava definido.
O que ela não permite é comprar briga que você não compraria sem ela. Se você não brigaria ali sem Aegis, a Aegis não conserta o terreno, nem o ângulo, nem a diferença de item.
Parte 5: a leitura do outro lado
O espelho disso é o princípio mais útil que ensinamos: jogue o jogo inteiro como se o adversário tivesse Aegis.
Repare no que acontece quando ele tem: você automaticamente faz o básico do Dota inteligente. Só compra briga em termos favoráveis. Não compra briga no desespero. Lida com waves. Extrai o máximo do mapa.
Ou seja, o medo do Aegis já produz o comportamento correto, sem exigir disciplina. Então o comportamento correto não depende do Aegis: depende de você remover a condição.
E, na prática, é isso que o Roshan inimigo deveria mudar no seu jogo: quase nada, porque você já deveria estar jogando assim.
Parte 6: negar o Roshan
Três formas, da mais barata para a mais cara:
- Visão no pit. Se você vê o começo, você tem 40 segundos para decidir. É a mais barata e a mais ignorada.
- Pressão em outro lugar. Se as suas waves estão avançando, eles não têm 40 segundos livres.
- Contestar. É a mais cara e a última opção. E vale mais roubar a Aegis com um dano de área bem colocado do que ganhar a briga.
Parte 7: os três Roshans de uma partida
Cada Roshan de uma partida tem uma função diferente, e tratar os três como se fossem a mesma coisa é o erro mais comum de time de elo médio.
O primeiro Roshan (normalmente entre os minutos 18 e 26) é sobre território. A Aegis importa menos do que o fato de você ter controlado aquele lado do mapa por dois minutos sem ser contestado. Nessa fase, um Roshan feito com o time inimigo sem saber costuma render mais em espaço de farm que em briga.
O segundo Roshan é sobre objetivo. Aqui a Aegis existe para viabilizar uma coisa específica: uma subida de high ground, uma torre de tier 3, uma quebra de barracks. Se você pegou o segundo Roshan e não sabe dizer qual prédio ele vai derrubar, você provavelmente vai gastá-lo procurando briga, que é o erro descrito na parte 4.
O terceiro Roshan em diante é sobre seguro. Nessa fase da partida uma briga perdida costuma acabar o jogo, e a Aegis (mais o Cheese, quando existe) é o que permite errar uma vez. É o Roshan em que o time deveria jogar mais devagar, não mais rápido, e é justamente o que mais produz play forçada.
A pergunta que organiza os três é sempre a mesma, e ela é anterior a matar o bicho: o que exatamente essa Aegis vai comprar? Se a resposta for "não sei, mas é bom ter", o Roshan pode esperar dois minutos e ser feito com um plano.
O resumo que vale levar pra próxima ranqueada
- A posição do Roshan decide qual metade do mapa importa. Ele desempata território.
- Faça com informação, visão, wave avançando e plano pro depois. Nunca só porque nasceu.
- A preparação acontece fora do pit, de dois a três minutos antes.
- Aegis é licença pra jogar seguro, não motivo pra forçar.
- Time em cinco com waves paradas é time que vai forçar play.
- Jogue como se eles tivessem Aegis o tempo todo, e o Roshan deles muda pouco pra você.
